quarta-feira, 13 de maio de 2009

5 Perguntas para José Valcir

Editor da revista independente Prismarte e membro da Produtora de Artistas Associados (PADA), José Valcir desenha quadrinhos desde criança. Mas foi em 1985, ao reencontrar dois amigos – os irmãos Milson e Marco Martins – que ele passou a se dedicar à associação pernambucana que quer fazer a diferença no mercado de quadrinhos nacionais.

José Valcir responde as 5 Perguntas do Papo de Quadrinho desta semana:

1) Como nasceu a PADA e a Prismarte?
A PADA surgiu do sonho de dois irmãos, Marco e Milson Marins, partilhado com outros que deram formação a essa produtora que almejava conquistar o mercado nacional de quadrinhos. Chegamos a mandar até uma HQ completa, e original, para extinta Bloch. Até hoje nunca recebemos de volta a história e nem tampouco resposta. Todos, sem exceção, sofriam influência direta dos comics, mas uma carta de um dos nossos colaboradores e uma entrevista com Lailson de Holanda, renomado chargista daqui de Pernambuco, nos fez olhar diferente para o mercado. A PADA deixou os superseres de lado e enveredou em busca de uma identidade para os quadrinhos que até então queria produzir. Eis à razão do slogan: “Prismarte, uma nova maneira de ver quadrinhos”.
Como fomos à primeira equipe unida em um único objetivo, conseguimos lançar a revista Prismarte e fazer as duas primeiras exposições de quadrinhos de Pernambuco, nos anos de 1990 e 1991. Antes, o pessoal da geração de Lailson, estava mais preocupada em produzir para Grafipar ou Vecchi, copiando ora terror, ora “uésten”. Nós até hoje estamos abertos a novos colaboradores e sempre publicando alguém de fora. No seu surgimento, a PADA chegou até mais de 25 componentes. Atualmente estamos reduzidos a três. Eu, Milson Marins e Arnaldo Luiz. Contudo, estamos abertos à inserção de novos colaboradores para nosso quadro. Serviço não falta.


2) Muitos artistas independentes vêm publicando seus quadrinhos em fotologs ou sites especializados. Você acredita que a Internet vai substituir o fanzine?
Sinceramente, não sei dizer. Acredito que num futuro longínquo isso possa vir a acontecer. Nossa cultura é do papel. De poder manuseá-lo e sentir o aroma de novo. Ou cheiro de velho, mesmo. No momento, num país terceiro-mundista como o nosso, cujo analfabetismo, desemprego e custo de vida ainda é um mote para políticos fazerem de palanque com intuito de se elegerem, estamos longe de mudar essa realidade. Nesse momento.
Talvez essa juventude que está aí, no futuro, venha a mudá-lo. Um garoto que já nasce inserido numa realidade repleta de tecnologias como MP3, jogos digitais e comunidades on-line, talvez tenha outra visão sobre as coisas em volta de si. Assim como nossos conterrâneos, a Marvel e a DC já se inseriram nesse mercado de quadrinhos na rede mundial. Ainda como teste, mas devagarzinho a coisa vai mudando. Mas, mais adiante, o conceito de quadrinhos como conhecemos vai mudar, assim como Cassiopéia e Toy Story mudaram a animação. Essa é a tendência à qual as histórias em quadrinhos vão tomando forma, numa nova linguagem alcunhada pelo Edgar Franco: Hqtrônica. Quem sabe?

3) Algumas grandes editoras têm lançado obras originais ou adaptações literárias feitas por artistas brasileiros. Você acredita que isto seja uma mudança na forma como o mercado enxerga o quadrinho nacional?
Sim. Mas também uma retomada. Lembro que em dada época a Editora Brasil-América (EBAL) fez adaptações de obras literárias e vultos nacionais, com menos flexibilidade criativa. Hoje, o autor tem mais liberdade e está tratando o tema sem a rigidez culta. Ora, a linguagem dos quadrinhos é diferente de uma literatura, embora tenham em comum o texto. E eu vejo as histórias em quadrinhos como transição para os livros. Contudo, esse nicho de mercado está sendo receptivo e as editoras estão investindo mais e isso é muito bom. Precisamos fomentar os quadrinhos no Brasil e se isso implica fazer temas históricos ou abranja à Literatura, que seja. Tem que se começar por algum lugar a fim de trilhar outros caminhos.
O André Diniz, do “sítio” Nona Arte, falou da chegada da corte portuguesa ao Brasil. O sociólogo e professor Amaro Braga organizou e escreveu a história dos judeus em Recife, adaptação de um livro para os quadrinhos. Além disso, escreveu sobre os holandeses e a expulsão desses pelos índios, negros e portugueses, inserindo esse material nas escolas públicas e particulares. No
Maranhão, foi recentemente publicada a história desse estado. Até nós mesmos, da PADA, fomos convidados a participar de um projeto sobre o vulto pernambucano que livrou os países latino-americanos do jugo espanhol, o general Abreu e Lima. O presidente Hugo Chávez tem esse homem como grande herói do povo dele ao lado Simon Bolivar, enquanto eu e demais pernambucanos o desconhecíamos. Por outro lado, eu sei quem foi Billy The Kid. Irônico, não? Eu acredito que o mercado é propício a esse tipo de produto. Existe muita coisa aqui sendo produzida e não posso falar porque não são obras minhas. Mas acredito que será um material de primeira.

4) Quais são, na sua opinião, as maiores qualidades e os maiores defeitos da atual produção nacional de quadrinhos?
Para mim, a maior qualidade no cenário fanzinístico é manter acesa a chama pelas histórias em quadrinhos. Graças aos fanzines, muitas informações foram trocadas. Muita discussão política acerca do que a Editora Abril fazia com as histórias, as mortes e ressurreições de personagens, como a morte do Super-Homem (DC) e da Rê Bordosa, do Angeli, como forma de marketing. O uso de subliminar nos quadrinhos. Foi um período efervescente, criativo e inteligente. Títulos como Marca de Fantasia (depois se transformou em Nhô-Quim, Top!Top!), de Henrique Magalhães, Polítqua, de ZeCarlos Ribeiro, Psiu (e a série de Psiu Mudo, Deus, Eco-Lógico), de Edgard Guimarães, Barata, de Flávio Mário de Alcântara Calazans, Baloon de Quadrinhos, de Gonçalo Jr. e outros tantos. Minha formação quanto a produtor, pensador e editor de quadrinhos veio dessa época. Uma leitura crítica do que chegava às mãos. Algo que a Prismarte herdou: fazer algo compromissado, pensante e crítico.
Eu enxergo hoje esse meio muito mudado. Temos ainda dessa época o Henrique Magalhães, com a editora Marca de Fantasia, publicando muito material de qualidade e editando de uma forma mais profissional o Top!Top!. Um veículo pensante e antenado com quem já fez história e com que está surgindo. Um celeiro muitíssimo interessante de se conhecer. O Edgard Guimarães é outro que veio dessa fase e faz hoje o fanzine Quadrinhos Inteligentes – QI. Para sua seção de cartas, batizada de Fórum, convergem muitas cabeças pensantes e não me incomodo em dizer que é o coração desse veículo de comunicação. Pensante, vibrante e atuante. O QI divulga outros quadrinhos e possui textos inteligentíssimos. Vale a pena conhecer tanto o Top!Top! quanto o QI.
Não sei dizer se é defeito, mas vejo que a visão antes crítica foi substituída por vender. Chegar ao mercado. Ter um fanzine é um meio de divulgar o trabalho, de amadurecer o roteiro ou o traço e vender. A competitividade chegou ao meio, sim. E vejo isso como algo salutar. Não dar para ficar sonhando, mas deve-se fazer algo inteligente. A tecnologia permitiu sair do mimeógrafo para máquinas fotocopiadoras. Agora temos o computador que nos facilitar desenvolver trabalhos com resultados fantásticos - Mas a máquina não substitui o talento. E se autoeditarem, como nós, da PADA, e tantos outros autores distribuídos pelo Brasil afora.
Ainda há um público cativo que busca reproduzir o que se faz nos comics e mangás. Entretanto, assistimos a uma sutil mudança nos super-heróis tupiniquins. Eles não só estão enfrentando alienígenas como estão confrontando-se com traficantes de drogas, corrupção política. Estão mais próximos de um Brasil real. Isso é bom. Por outro lado, alguns desses artistas – na maioria desenhistas – sonham em trabalhar para uma Marvel ou DC da vida, pasteurizam o desenho e perdem sua própria identidade. Nada contra fazer quadrinho de exportação e a técnica de desenho deles é muito boa. Mas inserir-se nesse mercado não é fácil e parece que todo mundo desenha de um modo só. Poucos são aqueles que conseguem ousar. Agora, o que gosto de ver é essa gana que mantém viva a chama aos quadrinhos. Cada editor se autoproduzindo, expondo seus títulos e querendo ganhar espaço. Mas falta ainda se profissionalizarem. Entender que o leitor é um cliente e visto assim o tratamento será diferente, e o que fizer será em prol desse leitor. Conquistar espaço nas prateleiras das bancas e se confrontar com títulos já consagrados e romper com essa dependência de editora (embora não fosse ruim uma nos financiar), buscar meios de vendagem. O meio fanzinístico não é ruim, mas funciona para quem quer só se divertir e falar dos seus gostos pessoais. Agora, para quem busca ganhar dinheiro é o lugar errado de ficar. Aprender com quem tem experiência nesse meio é muito legal, trocar informação e se apresentar ao público. Entretanto, com a inserção da tecnologia ficou mais fácil editar uma revista. De dar um ótimo acabamento, mas isso sem um bom personagem, bom roteiro e bom desenho não vai longe. Tem que ter planejamento e organização e “1% de inteligência e 99% de muito suor”.


5) De que forma o poder público poderia contribuir para uma maior profissionalização do quadrinho brasileiro?
Vou requentar um assunto há muito esquecido, que é a lei de cota para os quadrinhos. Muita gente reclamou quando surgiu aquela proposta do deputado Simplício Mário. Nem sei se ainda ele é deputado e se o projeto de lei ainda existe, mas ali foi uma tentativa de fazer algo pelas histórias em quadrinhos. O autor em questão era (ou é) leitor de HQ e a proposta era muito interessante, onde faria com que as republicadoras, como uma Panini da vida, tivessem que publicar uma quantidade “x” de títulos nacionais. Isso forçaria o surgimento de uma indústria de fomentação e o público começaria a descobrir nossos autores vindos dos alternativos. Gente de muito talento buscando uma oportunidade. Claro que nem todos são tão bons assim, mas somente o tempo para lapidar e a crítica do leitor para moldar. Só que os leitores entenderam que seria imposição para comprar o quadrinho nacional, e coisa e tal. Caramba! Será que para sermos lidos e considerados bons por nossos conterrâneos teremos que desenhar a Mulher-Hulk, como Mike Deodato? Como disse o Edgar Franco, a quem entrevistei na Prismarte, eles contratam desenhistas e não roteiristas.
O governo está fazendo a parte dele, ou, pelo menos, tentando. Uma foi a cota para os quadrinhos, mas como nos anos sessenta, esse projeto foi para “gaveta”. Também temos a lei de incentivo à cultura. O Amaro Braga, ao lado de Danielly e Roberta Cirne, estão produzindo quadrinhos; Matheus Moura publicou o Toka di Rato, cujo número dois anda em produção; e o governo do Estado de São Paulo abriu um edital, convidando os quadrinhistas a trazer projeto para participar dessa lei de incentivo. E aí, o que falta mais fazer? Creio que agora somos nós que temos que arregaçar as mangas e trabalhar.

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